| Por Fábio Rabin,
em 02-03-2008 22:42
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Fiquei pensando na diferença entre publicar coisas da minha vida
aqui ou apenas comentários profissionais e a conclusão foi: -Dane-se eu
sou um comediante stand-up e se não falasse da minha vida provavelmente
não teria um emprego.
Meu avô faleceu...faleceu não
porque isso é coisa de gente culta ele morreu mesmo porque essa palavra
é mais parecida com morte e dá o real tamanho da tragédia que me
representa.
Seu nome é Henrique Rabin, nascido em
Alagoas, médico, criado no Rio de Janeiro na época de Getúlio Vargas, o
primeiro representante médico do Brasil na época da segunda guerra
mundial. Seu pai, José Rabin trouxe ao Brasil ninguém menos que Clarice
Lispector a nobre escritora que tem no conto "Feliz Aniversário"
supostamente o retrato de minha bisavó. Falo isso pra que antes de
entrar em asneiras compreendam que este nome deve ser guardado não por
estes belos fatos mas por sua marcante personalidade que vou descrever
em alguns momentos que tivemos juntos.
Eu me lembro de
ser pequeno e ele com seus 1,90 de altura já grisalho, careca porém com
a mão mais pesada que já me acariciou. Eu pensava que estava tomando um
soco na cabeça, mas era o peso de suas mãos acariciando meus cabelos.
Um dia enternecido me disse: -Garoto, você pode ser o que quiser ser na
vida! Tenho certeza que irá conseguir se dar bem no que escolher! Eu
desejo sinceramente que todo mundo tenha ouvido esta frase um dia. Te
dá muita tranquilidade, principalmente quando você vai mal na escola e
não vê tantas boas escolhas para o futuro. Eu não queria ser nada, mas
tinha certeza que deveria escolher algo especial pois segundo meu avô
eu faria bem.
Eu tinha orgulho de ser neto do Doutor
Henrique, não apenas porque me paparicava como neto, mas porque era o
único, ao lado de sua esposa e amor da sua vida, Beatriz Rabin que
conseguia aquietar o ânimo de minha mãe e meus tios. A hierarquia era
assim: Minha mãe mandava em mim, meu avô na minha mãe, logo ele era meu
ídolo.
Que tipo de doutor era ele? Naquela época
tratava-se de tudo. Menos especialização e mais medicina no sentido
mais amplo e se é que posso dizer, romântico da profissão. Pra mim,
médicos são heróis de branco. E aqui vão 3 histórinhas pra entenderem
que tipo de médico era ele.
Uma vez fora chamado para uma
aldeia no interior do país. Na expedição tinha a função de levar a cura
para regiões mais carentes do país ao lado de outros médicos. Contou
que viu uma penumbra de longe de lá se ouviram cantigas tristes...era
uma missa, mas não de morto, de moribundo. Ele entrou no que parecia
ser uma capela e viu o corpo de um garoto, cercado de velas e pessoas
que choramingavam sua perda. Apresentou-se como médico e após alguma
conversa tirou de sua mala um líquido, mais conhecido como uma espécie
de laxante que fez com que o menino em alguns minutos se levantasse e
fosse correndo para o mato. Lá ele defecou não apenas seus vermes como
a sua enfermidade.
Outra vez meu avô contou: -Fiz um
parto, mas um parto irritante! -Como assim vovô?Indaguei. Ele
respondeu: -A mãe gritava tanto que se contraia e sufocava o bebê bem
no momento de seu nascimento! E o que fez vovô? Perguntei de novo. Ele
respondeu: -Dei um tabefe nela! Quando sentiu a dor do tapa relaxou e a
criança pôde nascer! Anos depois ela ainda me agradece! E se ria de
prazer com a história.
Com essas e outras eu, como todo
garoto influenciado por filmes norte-americanos não podia deixar de
desejar ser herói, ou ao menos coadjuvante e sempre desejei estar
presente ao lado de meu avô quando alguma garota popular passasse mal
para que ele a salvasse. Um belo dia isso aconteceu!
Eu
tinha 9 ou 10 anos e estava no meu prédio brincando no parquinho com as
outras crianças, quando a garota mais popular do prédio, uma loira alta
com seus 15 anos de idade prendeu o pé no centro do gira-gira e
continuou a rodar. Todos ouviram o estalo de sua perna e seu grito de
dor. Sua perna ficara presa e sua calça tinha o azul coberto por sangue
em sua expressão a dor, na expressão das outras crianças o horror e na
minha...bem na minha...o doutor!
Meu avô tinha negócios a
tratar em São Paulo e vinha para uma rápida visita. Eu fiquei quase
alegre com o acidente e disse ansioso: -Acalmem-se todos! Meu avô é o
melhor médico que há! Vejam bem...eu com 10 anos estava dizendo a cerca
de 20 crianças e adolecentes de até 17 anos que eu possuía a solução do
caso. E disse: -Não saiam daqui... meu avô irá salvá-la.
Enquanto a menina ficava embaixo do gira-gira gemendo de dor e todos
esperavam pela minha chegada com o super homem eu subia ansioso o
elevador e ao abrir a porta quase matei a todos do coração gritando:
Vôoooo tem uma menina machucada! O senhor precisa salvá-la! Sem nenhum
susto ele se levantou e calmamente segurou sua grande mão na minha e
desceu comigo para o socorro.
Eu ainda vejo a
cena...todos me olhavam com os olhos brilhando, eu e a figura enorme de
meu avô andando de mãos dadas como dois anjos que iam proteger a vida
de quem precisasse e eu apenas pegava carona neste sonho. Meu avô parou
na frente da menina que gemia de dor, olhou friamente o quadro, sem
tocá-la, sem nada e todos aguardavam ansiosamente sua ação. Foi quando
ele depois de 5 segundos de análise disse: -É...vai ter que operar!
Virou as costas e foi embora! Subiu para casa...sem mais nem menos e eu
fiquei com a maior cara de tacho, sendo olhado pelos olhares criminosos
de meus amiguinhos. Jamais senti tamanha vergonha!
Após a
chegada dos bombeiros, médicos e sua ida para o hospital veio à
notícia. Ela realmente tinha que operar. Mas para isso rasgaram sua
calça e tiraram uma radiografia. Ele apenas a olhou sem tocar e tirou
seu raio X de anos de experiência. O fato é que ele realmente não
poderia tocá-la. Logo voltei a sentir um orgulho maior ainda dele.
Este era meu avô, meu querido avô, que aos 80 anos caiu de um ônibus em
movimento, levantou e continuou caminhando, que aos 90 descobriu um
câncer na língua e foi privado do maior prazer de um
idoso...comer...mas ele ainda ficava feliz escutando música clássica e
sobreviveu a duras sessões de radioterapia, jamais chorou, jamais pediu
morfina, mas deram a ele porque senão ele morreria sufocado numa cama
de hospital.
Vovô, eu queria ser mais homem e estudar a
cura desta doença horrível que te levou, eu queria ter passado mais
tempo com você, hoje minha profissão é fazer rir, e eu só consigo
porque um dia você me disse que eu podia ser o que quisesse. Sabe do
que mais...eu quero ser seu neto pra sempre e não importa o que eu
fizer daqui pra frente, dedico todas as coisas boas ao senhor, pelo
homem que você era. Te amo. Abrace minha vó e diga a ela que também a
amo tanto quanto o senhor. Não sei se tem internet no céu...só se eu
assinar SKY!
Dói tanto não ter você aqui! Que teu nome seja lembrado por tudo o que o senhor fez. Eu tenho orgulho de ser um Rabin.
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